segunda-feira, 20 de abril de 2015

Aspas: Explosões.


Boa noite, gente!

Hoje passo para deixar um texto maravilhoso da Martha Medeiros.
Me sinto despida por estas palavras...rs
Leiam..é um pouquinho extenso, mais muito bom!





Explosões

Não tenho nada a ver com explosões", diz um verso de Silvia Plath. Eu li como se tivesse sido escrito por mim. Também não faço muito barulho, ainda que seja no
silêncio que nos arrebentamos.
Tampouco tenho a ver com o espaço sideral, com galáxias ou mesmo com estrelas. Preciso estar firmemente pousada sobre algo - ou alguém. 
Abraços me seguram. E eu me agarro. 
Tenho medo da falta de chão. Não voo senão em sonhos.
Não tenho nada a ver com o mato, com o meio da selva, com raízes que brotam do chão e me fazem tropeçar, cair com o rosto sobre folhas e gravetos feito uma fugitiva dos contos de fada, a saia rasgando pelo caminho, a sensação de ser perseguida.
Não tenho nada a ver com cipós, troncos, ruídos que não sei de onde vêm e o que me dizem. Não me sinto à vontade onde o sol tem dificuldade de entrar. Prefiro praia, campo aberto, horizonte, espaço pra correr em linha reta. 
Ou para permanecer sem susto.
Não tenho nada a ver com boate, com som alto impedindo a voz, com a sensualidade comprada em shopping, com o ajuntamento que é pura distância, as horas mortas desgastando o rosto, a falsa alegria dos ausentes de si mesmos.
Não tenho nada a ver com o que é dos outros, seja roupas, gostos, opiniões ou irmãos, não me escalo para histórias que não são minhas, não me envolvo com o que não me envolve, não tomo emprestado nem me empresto, se é caso sério eu me doo, se é bobagem eu me abstenho, tenho vida própria e suficiente pra lidar, sobra pouco de mim para intromissões no que me é ainda mais estranho do que eu mesma.
Não tenho nada a ver com cenas de comerciais de tevê, sou um filme sueco, uma comédia britânica, um erro de adaptação, um personagem que esquece a fala, nada possuo de floral ou carnaval, não aprendi a ser festiva, sou apenas fácil.
Não tenho nada a ver com igrejas, rezas e penitências, são raros os padres com firmeza no tom, é sempre uma fragilidade oral, um pedido de desculpas em nome de todos, frases que só parecem ter vogais, nosso sentimento de culpa recolhido como um dízimo. 
Nada a tenho a ver com não gostar de mim. 
Me aceito impura, me gosto com pecados, e há muito me perdoei.
Não tenho nada a ver com galáxia, mato, boate, a vida dos outros, os comerciais de tevê e igrejas.     Meu mundo se resume a palavra que me perfuram, a canções que me comovem, a paixões que já nem lembro, a perguntas sem respostas que não me servem, à constante perseguição do que ainda não sei.
Meu mundo se resume ao encontro do que é terra e fogo dentro de mim, onde não me enxergo, mas me sinto.
Minto, tenho tudo a ver com explosões.
(Martha Medeiros)

Uma ótima  noite!

Beijos no <3

Sheila

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