sábado, 28 de junho de 2014

Aspas: Liberdade?

Para desejar um  excelente fim de semana,
um dos milhares textos da Martha Medeiros que eu AMO.


A prisão de cada um

O psiquiatra Paulo Rebelato, em recente entrevista para a revista  gaúcha Red 32, disse que o máximode liberdade que o ser humano pode aspirar, é escolher a prisão na qual quer viver.
Pode aceitar essa verdade, com pessimismo ou otimismo, mais é impossível refutá-la.
A liberdade é uma abstração. Liberdade não é uma calça azul, velha e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento para vestir. No entanto, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado no pescoço.
Diga-me qual a sua tribo, que direi qual a sua clausura.  São cativeiros bem mais agradáveis que o  Carandiru: podemos pegar sol, ler bons livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música ou seja, uma cadeia à moda Luiz Estevão, só que temos que advogar em causa própria e hábeas corpus, nem pensar.
O casamento pode ser uma prisão. E a  maternidade a pena máxima.
Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar novos vôos. O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia.
Tudo que lhe dá segurança, ao mesmo tempo lhe escraviza.  Viver sem laços igualmente pode nos reter. Uma vida mundana, sem dependentes pra sustentar, o céu  como limite: prisão também. Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delicia de uma vida amorosa, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho. Se nem a estabilidade e a instabilidade nos torna livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão, já é em si, uma vitória. Nós é que decidimos, quando seremos capturados e para onde seremos levados. É uma opção consciente. Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presidio real,entre quatro paredes.
Nosso crime é estar vivo, e nossa sentença é branda, visto que os outros, ao cometerem o mesmo crime que nós - nascer - foram trancafiados em lugares chamados analfabetismo, miséria, exclusão.
Brindemos..temos todos celas especiais.
(Martha Medeiros)

Beijos!
Sheila Guedes

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